26 setembro 2012 by Published in: Conto, Fantasia, SteamPunk No comments yet

O conto seguinte foi publicado no grupo do Conselho Steampunk CE por Diego Sampaio, para seu melhor proveito estamos divulgando aqui no site.

 

Ola pessoal, sempre tive vontade de entrar na literatura steampunk, tenho escrito alguns contos no estilo e espero que futuramente evoluam pra algo maior, estou postando um conto abaixo e agradesço as criticas, obrigado

ps: alguns erros de ortografia existem, o docs nao ta corrigindo direito ultimamente e sou pessimo acentuando 🙂

 

Terra nova

Diario de Albert Di Leon, dia 32 de caclismano do ano 1889 do sagrado império.

Acordei na minha cabine de campanha alguns poucos minutos antes do alvorecer, e pude apreciar a beleza do sol erguendo-se, pintando o céu de infinitas cores rubras ao sair do seu esconderijo, ao pairar acima da tempestade infinita. Esse mesmo sol me mostrou pela primeira vez aquela terra perdida sobre a qual meus avós contavam histórias e que mesmo depois de mais de quinze anos de explorações ininterruptas por parte do império, ainda se mostra um imenso enigma literalmente flutuando ao nosso redor.

Naquela noite eu havia sonhado como meu pai. Com as primeiras caçadas que fiz ao seu lado em nossas terras no Vale do Inverno. As primeiras vezes em que aprendi a empunhar uma arma nas nossas caçadas de fim de tarde aos golanos(1). Naquela época eu não podia imaginar que um dia seria a fama de caçador que guiaria minha vida.

Aportei no primeiro posto avançado no império nas terras zamoanas, que carregava o nome de “Sagrada Madeleine”. A borda das terras tinha um ar quase imperial em suas poucas construções, haviam algumas damas e cavalheiros vestidos a moda imperial, mesmo sobre o calor escaldante que fazia naquela terra esquecido por Deus. A visão do primeiro nativo, que eu só conhecia dos livros e revistas académicas, ou mesmo da descrição dos velhos avantistas que se reuniam em minha casa nos meus tempos de criança, contando histórias, foi deveras impactante. Era uma moça, uma fêmea, ou seja la que nome deva ser usado para se referir àquela gente, tinha um pele escura com um tom amarronzado, um corpo esguio e firme, olhos lânguidos e um rosto estranhamente belo adornado por um cabelo armado de cachos. Não usava roupas na parte de cima do dorso, e exibia seus seios nus em plena via publica e na parte de baixo trajava uma pequena tanga que mal disfarçava suas intimidades.

Nos primeiros dias hospedado na casa do senhor Alan Kish, lugar que consegui com uma carta de recomendação entregue a mim por meu estimado amigo professor Alexander, descobri um pouco mais sobre aquele povo tão estranho, cuja nudez parecia nada menos que natural e que, mesmo sendo tão corteses tinham parentes terra adentro que adorariam ter alguns visitantes para um banquete, sendo os convidados o prato principal. Falavam um sem numero de dialetos, sendo o aparentemente mais conhecido e popular chamado de “Aioê”, uma língua tão estranha e exótica quantos seus usuários.

Os poucos nativos que falavam o aglo com os quais pude travar alguma conversa sempre me trataram por “Quizuna”, uma palavra cujo significado até hoje não consegui definir totalmente. Pois sempre que questionei um nativo sobre ela recebi uma resposta diferente, as vezes cortesa, as vezes bajuladora, as vezes agressiva, mas se me fosse perguntado qual das respostas achei mais sincera, eu lembraria de um velha senhora da qual comprei um pequeno boneco de palha intentando que esse servisse de lembrança e presente a minha sobrinha Anete quando eu voltasse a civilização. Ela me disse que “Quizuna” significava “homem sombrio”, e olhando os homens do império por uma ótica nativa, realmente parece uma boa definição.

Após um tempo aprendendo sobre o lugar, chegou o momento de iniciar a tarefa para a qual eu tinha vindo. Havia sido enviado às terras de Zamoa para descobrir o paradeiro do doutor Tiberius Arquebalti, o mais renomado antropólogo do império, que havia sumido há vários meses. Acreditava-se que Tiberius havia se embrenhado na recem descoberta Planície Verde, um lugar nos recôncavos mais profundos da selva zamuana. O bom doutor desenvolvia um estudo sobre as origens do homem, e acreditava que a chave para a resposta das suas perguntas estava de algum modo ligada ao povo zamoano. Não preciso dizer que considero tal coisa , assim como qualquer bom beltriziano em sã consciência, uma enorme sandice, mas o homem era mais teimoso que uma mula e mesmo depois de todos os avisos de perigo resolveu promover sua expedição assim mesmo.

Arqueibalti havia partido com o seu fiel guia Ibada, sua assistente não menos fiel senhorita Bildenbroque e uma serie de carregadores nativos rumo aos confins da floresta. E não havia retornado ou mandado qualquer noticia ate o presente momento. Cinco meses e 28 dias já havia se passado desde então. Peguei um guia local que falava aglo pessimamente, mas que aceitou me levar ate os arredores do local de destino de Tiberius, dois carregadores e um mestiço caçador chamado Mamoa, esse sim de linguajar quase tão perfeito quando o meu, e parti rumo ao desconhecido.

Já nos primeiros dias pude sentir o por que de eu ter sido escolhido, a viagem provou-se duríssima, o tempo zamuano era insuportavelmente quente e úmido, havia cobras e criaturas peçonhentas e vorazes em todos os lugares, alem de insetos de tamanhos que eu jamais poderia conceber na minha mente antes de ver. Avançamos lentamente durante uma semana ate chegar a um ponto em uma pequena clareira, lá Mamoa me convenceu a desviar a rota e passar por uma cabana de alguém que ele dizia ser uma especie de guia espirtural, nas palavras do seu idioma, um xamã. Resolvi que dormir com um teto sobre minha cabeça durante uma noite valia um quarto de dia caminhada e o acompanhei.

Chegando ao lugar, adentramos o que só posso descrever com uma palhoça minúscula em forma de cone com uma abertura no centro no qual queimava uma pequena fogueira. Encontramos o lugar vazio, mas Mamoa me preveniu que o tal xamã só apareceria no crepúsculo, e foi o que aconteceu. Um pouco após o jantar, sem emitir sequer um ruído (observe que para um caçador com a minha experiência, nenhum som passa despercebido). O homem apareceu na porta da palhoça, uma criatura seminua cheia de penas e com o corpo pintado por tintas de cores bizarras, teria feito saltar sua massa encefálica com um tiro da minha Bromouel 4.5, não fosse a interferência prodigiosa de Mamoa.

O velho ficou sentado conosco pelo resto da noite, aproveitei para perguntar-lhe sobre o doutor Arquibalti usando os préstimos de Mamoa como interprete. O homem não afirmou ter visto o cientista, mas disse, segundo a tradução de Mamoa, que o “homem cuja mente é como uma cruzadeira(2) numa caverna” tinha ido ate o lugar antigo do povo, onde os kaduns do passado, do mal, da loucura e do perigo vagavam. Ele fumava um cachimbo estranho do qual se elevavam fumaças multicolorias e cintilantes e que logo identifiquei, para o meu espanto, ser uma espécie de cachimbo de brisel(3).

Meu interprete comentou que tinha alguma idéia de onde ficava o lugar, e que os nativos não iriam conosco pois pra eles é um lugar proibido por suas crenças religiosas. Também me aconselhou a não ir e disse que se o doutor estivesse lá, mesmo que se encontrasse vivo, sua alma já estaria destruida. Primeiro perguntei como o velho sabia onde o doutor estava se não o havia visto nem conhecido e mais uma vez Mamoa salientou que os xamãs podia comunicar-se com o outro mundo, o mundo dos kaduns, ou com a única tradução da palavra que se aproximava em aglos, mundo dos espíritos. Soltei uma risada contida, e expus a minha crença de fé e salvação no meu rifle e no meu facão de caça, o que o deixou visivelmente irritado.

No dia seguinte o velho havia sumido novamente. Perguntei ao meu amigo mestiço onde ele havia ido e ele me disse que os xamãs são homens a noite, mas são kaduns de dia e que assim tem uma vida dupla e o conhecimento dos dois mundos e de todos os outros mundos secretos. Ri mais uma vez e pedi indicações do lugar que o velho citou na noite anterior, ele disse que tinha sido instruído pelo mesmo para me acompanhar, e que apesar do medo no meio-sangue zamoano iria obedecer. Agradeci e fiquei aliviado, tinha alguma dificuldade em me orientar naquelas terras ainda, apertamos o passo para o tal lugar antigo que ficava a meio dia de caminhada.

Depois de um interminável caminhada pela selva, no dia mais abafado de que posso lembrar e num silêncio um pouco desagradável, avistei de longe o lugar. Era uma caverna com uma face esculpida na rocha, e com a entrada lhe servindo de boca. A escultura era toscamente traçada e lembrava o jeito zamoano de representar a figura humana: distorcido, mal acabado e sem o menor rigor e estética das escolas clássicas as quais eu tinha preferência. Avançamos em direção à entrada, não antes do meu amigo mestiço me dar mais um de seus avisos superticiosos. Ele deixou o próprio rifle encostado num tronco e disse “La dentro arma não vai te servir”. Ignorei e joguei minha Bromouel ao ombro, guardando o monóculo e deixando a aljava próxima ao rifle de Mamoa, poderia precisar de agilidade e ela atrapalhava com seu peso.

O sol estava no meio do céu quando cheguei à porta da caverna junto ao meu companheiro, olhei para dentro e percebi que frestas na rocha permitiam ao lugar uma iluminação natural razoável. Pude ver vários rabiscos serpenteados pelas paredes, enquanto atrás de mim Mamoa fazia gestos supersticiosos e beijava o amuleto zoa (o nome era esse, o significado não me recordo) que carregava no pescoço falando em briô coisas das quais eu nada entendia.

Depois de alguns metros, obviamente em sentido descedente, ouvi um barulho à frente, saquei minha arma e o mestiço ficou estático, percebendo que ele não seria de grande ajuda fiz sinal para que esperasse ali, o que ele fez pelo simples fato de que não se moveria mesmo de qualquer forma. Caminhei na direção do barulho e depois de uma curva pode perceber uma espécie de festejo estranho em uma ante sala da caverna. O lugar era razoavelmente grande e no centro havia uma pedra como um altar. Haviam três homens muito altos, obviamente zamoanos, enfeitados de forma que nem sei descrever, algo como o velho da cabana com a bizarrice triplicada. Parecia que pedaços de carne ainda com sangue lhes adornavam o corpo. Mas dois homens estavam no lugar, esses pequeninos, pareciam gerar o barulho que ouvira anteriormente, cantando uma melodia estranha e tocando um tambor e algo que parecia ser um instrumento de corda com som estridente.

No centro estava um homem, também muito alto, acompanhado de alguém agachado, me aproximei mas um ou dois metros, ainda tentando não denunciar minha posição e pode perceber. Era Arquibalti! Suas roupas tinham um tom avermelhado e parecia participar da celebração. Olhei com cuidado e não vi mais ninguém por perto, o peso do rifle nas mãos me deu alguma confiança e sai de onde estava chamando pelo doutor. Os homens zamuanos me olharem com raiva e gritaram algo que não pude entender. Apontei a arma e segui, continuei a encará-los me aproximando e chamando Tiberius, sem resposta. Desviei meu olhar por um instante dos homens que pareciam cada vez mais raivosos e gritei para o doutor mais uma vez. Ele parou o que estava fazendo (o que eu não havia percebido ate então do que se tratava) e voltou-se lentamente para mim.

Aquela cena me assombra a mente até hoje. Atrás do velho doutor estava um corpo, obviamente beltreziano ao qual logo reconheci como sua assistente, ela estava morta, seu ventre aberto expondo as entranhas as quais pude seguir com o olhar até… Deus me proteja, me custa lembrar… Até a boca de Arquibalti! Seus olhos vítreos, congelados no espaço, davam a sua face um caráter de transe impensavelmente profundo. Com um susto dei um passo para trás, tentei ainda dizer algo mas antes que pudesse o velho homem investiu em minha direção como um tigre zamuando (que anos mais tarde eu viria a saber o que era) numa velocidade inconsistentes para sua idade e porte físico. Depois de anos de treinamento militar, e outros tantos de caçadas minha reação foi automática. Acertei-lhe um tiro no meio dos olhos que o fez cair seco de uma vez ao chão, no meio do caminho que fazia até mim, os outros cinco homens gritaram alto e atirei mais cinco vezes, e Santo John sabe que não minto quando digo que jamais errei um tiro àquela distancia, menos de dez passos. E eu juro que acertei aqueles cinco tiros, mas nenhum daqueles homens caiu e continuaram andando em minha direção.

Não sabia mais o que fazer, estava estático quando senti a Mão de Mamoa em meu ombro e um grito na língua estranha que ele faz uso, os homens pararam e ele me arrastou, a palavra é essa mesmo pois eu estava paralisado, levando-me até fora da caverna e de lá pela floresta numa correria desvairada ate o cabana do velho. Só lá, depois de algum tempo, no silêncio, comecei a voltar a mim. Falei a Mamoa sobre a aljava e ele mandou esquecê-la. Perguntei-lhe sobre aqueles homens, e ele respondeu que tínhamos feito o que poucos do povo dele já haviam feito e sobrevivido, havíamos visto kaduns e só por causa do seu amuleto de zoa, dado pelo velho como um sinal de sua proteção havíamos saído de lá vivos e com nossas almas.

Disse que o velho xamã havia lhe dito que deveria proteger-me e que eu deveria saber o que espera por aqueles que não temem os kaduns e os poderes ocultos do mundo e que deveria dizer ao meu povo que devem respeitar aquela terra, por isso eu havia escapado vivo. Passamos o resto do dia e da noite em silêncio, depois voltamos à Sagrada Madeleine. Agradeci a Mamoa e depois desse dia nunca mais o vi, embarquei para Beltrizana e ao chegar dei a seguinte notícia à família do professor e a todos do reino: ele e sua equipe havia morrido como heróis da ciência nas garras de um deslizamento de terra, seus corpos haviam sido soterrados e não puderam ser recuperados. Fui agraciado com uma mérito da academia pelo serviço prestado e nunca abri minha boca pra falar de xamãs, kaduns ou pessoas de almas perdidas. Mas a todos que foram a zamoan depois de mim e com quais tive contato, e foram muitos, eu repassei a mensagem “respeitam aquela terra, ela é lar de muitos mistérios, mais do que se possa pensar, respeitem aquele povo”. No final, meus conselhos eram tidos como brincadeiras espirituosas, mas eu não deixo de dá-los, por que na única vez que o fiz, ao deitar na cama à noite, escutei um barulho de um tambor e de um instrumento de corda de som estridente que tocavam ao que parecia ser longe, mas nem tanto quanto eu gostaria.

(1)aves campestres semelhantes a faisões.
(2)pássaro pequeno que migra grandes distancias e voa muito rápido.
(3)Cristal que se sublima gerando um gas com propriedades misteriosas de flutuaçâo.

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